

A expectativa é que os primeiros procedimentos com essa tecnologia no país ocorram até 2030. O tema foi abordado no I Simpósio Multidisciplinar de Transplantes da Fundação Pró-Rim realizado no ano passado
O xenotransplante é o transplante de órgãos, tecidos ou células de uma espécie animal para humanos, utilizando principalmente órgãos de porcos geneticamente modificados para diminuir o risco de rejeição pelo organismo humano. A técnica desponta como uma alternativa promissora para reduzir a escassez de doadores disponíveis.
Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), a espera por um transplante renal lidera a lista nacional de espera por órgãos, com 44 mil pessoas. O número corresponde a aproximadamente 92% dos pacientes em lista que aguardam um doador compatível. O desenvolvimento de órgãos a partir de animais poderia ampliar significativamente a oferta de transplantes e reduzir o tempo de espera.

Tadeu Thomé é Enfermeiro pela PUC-SP, Coordenador do Programa de Transplantes do Hospital Sírio-Libanês e Membro do Departamento de Coordenação em Transplantes da ABTO.

Etapas de um xenotransplante
Durante uma palestra sobre o tema no Simpósio Multidisciplinar de Transplantes da Fundação Pró-Rim, o enfermeiro, pesquisador e CEO da XenoBrasil Tadeu Thomé, destacou que a técnica pode representar uma nova fronteira da medicina de transplantes. “Há pacientes que permanecem anos aguardando um transplante e muitos não conseguem chegar a tempo”, afirma.
Segundo Thomé, o uso de porcos como fonte de órgãos ocorre por diversas vantagens biológicas e logísticas. “Eles são os mais semelhantes geneticamente, com 98% do DNA parecido com o de um humano”, explica. Os suínos têm órgãos de tamanho semelhante ao humano, possuem ciclo de vida rápido e podem ser geneticamente modificados para reduzir a rejeição imunológica.
Os primeiros xenotransplantes previstos no Brasil devem focar em quatro tipos de órgãos ou tecidos: rim, coração, córnea e pele. Segundo Thomé, esses procedimentos poderiam atender cerca de 94% da demanda por transplantes no país.
Engenharia genética e a criação dos animais
Para ocorrer o xenotransplante, é necessário aplicar técnicas de engenharia genética para tornar os órgãos de animais mais compatíveis com o organismo humano.
Isso acontece porque, naturalmente, o sistema imunológico humano reconhece um órgão animal como estranho e o rejeita rapidamente. Para evitar essa rejeição, é preciso modificar geneticamente o DNA dos porcos antes mesmo de eles nascerem.
“A primeira frente é a engenharia genética, da qual a gente faz o isolamento e a criação de células dentro dos porquinhos para a criação desses órgãos”, explica Thomé. Em seguida é feita a edição genética, retirando alguns açúcares responsáveis pela rejeição e inserindo outros genes. Em seguida ocorre a clonagem dessas células, que são utilizadas para gerar os embriões.
Após essa etapa, os embriões são implantados em fêmeas e dão origem a porcos geneticamente modificados, criados especificamente para a produção de órgãos. Ou seja, os animais nascem já com alterações genéticas projetadas para permitir o uso de seus órgãos em transplantes humanos.
Vale destacar que os porcos utilizados na pesquisa são criados em biotérios altamente controlados, com protocolos rigorosos de biossegurança. A água consumida pelos animais passa por processos de esterilização com ultravioleta e produtos químicos, enquanto a ração é irradiada para eliminar qualquer possibilidade de contaminação.
Além disso, os profissionais que trabalham no local precisam seguir protocolos semelhantes aos de laboratórios de alta segurança.
“As pessoas que entram no biotério precisam tomar banho antes de acessar o local e vestir roupas especiais. Não podem ter animais de estimação em casa nem trabalhar com outros animais”, explica Thomé. Essas medidas visam garantir que os órgãos produzidos estejam livres de patógenos que possam ser transmitidos aos pacientes.
Do laboratório ao paciente
Os estudos dos xenotransplantes começam em laboratório, com análises celulares e testes em órgãos mantidos em sistemas de perfusão – equipamentos que simulam a circulação sanguínea.
Nesses experimentos, o sangue humano é colocado em contato com o órgão animal para avaliar o grau de rejeição e possíveis danos aos tecidos, medindo o nível de lesão e as respostas imunológicas.
Depois dessas etapas pré-clínicas, os pesquisadores partem para estudos em pacientes com morte encefálica, que permitem observar as reações do organismo humano sem colocar em risco os pacientes vivos. Somente após essas fases é possível iniciar os estudos clínicos com pacientes em lista de transplante, previstos para acontecer até 2030, caso os demais pontos éticos e regulatórios sejam aprovados.
Desafios éticos e regulatórios

Ainda há desafios a serem superados
Apesar dos avanços científicos, o xenotransplante ainda enfrenta desafios importantes antes de se tornar uma prática clínica no Brasil. Um dos principais obstáculos é a criação de uma regulamentação específica para esse tipo de procedimento. Atualmente, ainda não há normas nacionais detalhadas sobre o uso de órgãos de animais em transplantes humanos.
Outro ponto importante será o processo de consentimento dos pacientes que participarem dos primeiros estudos clínicos. Em experiências internacionais recentes, os termos de consentimento chegaram a ter mais de 30 páginas detalhando possíveis riscos e complicações. Há também outras lacunas nos estudos brasileiros sobre xenotransplante. Uma delas é a rejeição do organismo receptor ao órgão transplantado. Se esse já é um desafio nos transplantes entre humanos, tende a ser ainda maior quando o doador é um animal. Para evitar esse quadro, são receitados imunossupressores, que reduzem a atividade do sistema imunológico e ajudam a prevenir a rejeição do órgão transplantado.
No caso dos xenotransplantes, os órgãos transplantados também podem reagir aos hormônios de crescimento humanos, o que pode provocar um aumento descontrolado do órgão doado. Para evitar essa reação, cientistas realizam edições e ajustes genéticos nos porcos que servirão como doadores, reduzindo o risco dessa interação indesejada.

“A utopia está sempre no horizonte. Quando avançamos um pouco, ela se afasta novamente. Mas é justamente isso que nos faz continuar caminhando”, afirma Tadeu
Um futuro possível para os transplantes
Apesar dos desafios, os pesquisadores acreditam que o xenotransplante pode transformar o cenário da medicina de transplantes nas próximas décadas. Se os estudos forem bem-sucedidos, a tecnologia poderá reduzir drasticamente a fila de espera por órgãos e ampliar as chances de tratamento para milhares de pacientes.
“Hoje parece algo distante, mas muitos avanços médicos começaram assim. O transplante cardíaco, por exemplo, também já foi visto como algo impossível”, afirma Thomé.
Para ele, o avanço da ciência depende justamente da capacidade de transformar ideias consideradas utópicas em novas soluções médicas.
“A utopia está sempre no horizonte. Quando avançamos um pouco, ela se afasta novamente. Mas é justamente isso que nos faz continuar caminhando”.
A palestra completa de Tadeu no I Simpósio Multidisciplinar de Transplantes da Fundação Pró-Rim pode ser assistida na íntegra clicando aqui.
Luiza Helena da Rocha | Fernando Rodrigues — Comunicação Pró-Rim




