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Tocantins registra uma das maiores letalidades por álcool do país: o rim é a vítima silenciosa

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19 de fevereiro de 2026
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  • saúde renal

Especialista da Fundação Pró-Rim explica como o “Binge Drinking” e a desidratação no Cerrado silenciam os sinais de lesões graves, elevando o risco de diálise entre os tocantinenses.

O Estado do Tocantins consolidou-se, entre 2024 e 2025, como uma das unidades federativas com os indicadores mais críticos de morbimortalidade associada ao consumo de álcool no Brasil. De acordo com os dados do Panorama CISA 2025 produzido pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), o Estado apresenta um perfil de consumo que, somado às condições climáticas do Cerrado, resulta em danos severos ao sistema renal da população. A análise dos números revela que a questão ultrapassa o comportamento social, configurando um desafio de saúde pública centrado na falência de órgãos vitais.

O padrão predominante no Estado é o Binge Drinking, o chamado Beber Pesado Episódico, caracterizado pelo consumo de cinco ou mais doses de álcool em uma única ocasião. No contexto tocantinense, em que as temperaturas ultrapassam rotineiramente os 35°C, esse hábito desencadeia um processo de desidratação aguda. O médico nefrologista Dr. Winglerson Cordeiro, inscrito no CRM-TO sob o número 3506, RQE 3528 e responsável técnico pela unidade da Fundação Pró-Rim em Gurupi, explica que o álcool interfere diretamente no equilíbrio hormonal necessário para a filtragem do sangue.

“Ao ser consumido, ele inibe o hormônio antidiurético, chamado ADH, fazendo com que esse organismo perca mais água pela urina. Isso explica o aumento da diurese durante a ingestão e a famosa ressaca com sede intensa. Em estados quentes como o Tocantins, no qual a perda hídrica já é naturalmente maior, essa combinação se torna perigosa. A desidratação reduz o volume circulante, diminui a perfusão renal e pode precipitar uma lesão renal aguda, especialmente em quem já tem algum fator de risco, ainda que não saiba disso”, afirma o especialista.

A gravidade do cenário é mensurada em números. O levantamento do CISA aponta que, em 2024, o Tocantins registrou uma taxa de 232,2 internações por 100 mil habitantes, patamar 18% superior à média nacional brasileira, estando atrás apenas de Paraná, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Piauí. 

O dado mais alarmante, contudo, é a letalidade: o Estado registra 41,9 óbitos por 100 mil habitantes sendo uma das maiores do país, atrás de Espírito Santo, Piauí e Paraná. Esta discrepância sugere que o paciente alcoolizado no Tocantins frequentemente chega ao sistema de saúde com quadros já avançados,  que podem ser decorrentes de intoxicação ou traumas, dificultando a reversão na chamada “hora de ouro” do atendimento. Nesse sentido, a Fundação Pró-Rim alerta que o tempo é o fator determinante entre a recuperação da vida e até mesmo, evitar o desenvolvimento da Insuficiência Renal Aguda (IRA) e uma dependência futura definitiva de máquinas de diálise.

Traumas e a morte dos túbulos renais

Além do impacto direto da desidratação, o consumo de álcool no estado está intrinsecamente ligado a traumas físicos. O Tocantins lidera o ranking nacional de “Beber e Dirigir”, com 31,4% dos motoristas admitindo a prática. Esses acidentes frequentemente resultam em rabdomiólise, uma condição em que o tecido muscular é destruído e libera uma proteína chamada mioglobina na corrente sanguínea. 

“Esta substância é altamente tóxica para os túbulos renais. Traumas extensos, esmagamentos ou permanência prolongada imobilizado liberam grandes quantidades de mioglobina, que obstruem e intoxicam os rins”, detalha o Dr. Winglerson Cordeiro. Segundo o médico, a falência renal nesses casos pode ser rápida e grave, especialmente onde o acesso à hemodiálise de urgência enfrenta desafios logísticos.

Agressão silenciosa 

No campo das doenças crônicas, o cenário também é de alerta. Cerca de 21,4% da população adulta do Estado mantém um consumo semanal constante de álcool, o que atua como gatilho para a hipertensão arterial. O Dr. Winglerson descreve o processo como uma agressão silenciosa: “O consumo crônico eleva a pressão e desregula o sistema renina-angiotensina-aldosterona. A hipertensão ao longo dos anos literalmente cozinha os rins. A pressão elevada dentro dos pequenos vasos gera cicatrização progressiva e perda de néfrons”. Este quadro, conhecido como nefroesclerose, é muitas vezes descoberto apenas quando a função renal já está comprometida de forma irreversível.

Outro fator de risco identificado pela prática clínica é o uso de medicamentos para mitigar os efeitos da ressaca. A combinação de álcool com anti-inflamatórios não-esteroidais é descrita pelo nefrologista como uma “tempestade perfeita”. De acordo com o especialista, os anti-inflamatórios reduzem a produção de prostaglandinas, essenciais para manter a circulação sanguínea dentro dos rins em estados de desidratação. O resultado é uma queda abrupta na taxa de filtração, agravando o risco de lesões agudas em pacientes que, muitas vezes, desconhecem ter fatores de risco prévios.

Sinais de alerta e orientação

Para auxiliar no reconhecimento precoce de danos, a prática clínica do Dr. Winglerson destaca sinais que jamais devem ser ignorados após o consumo excessivo de álcool:

  • Redução importante do volume urinário ou interrupção da urina.
  • Urina com coloração escura semelhante a chá ou refrigerante de cola.
  • Edema difuso representado pelo inchaço em pernas, braços ou rosto.
  • Dor lombar e fraqueza intensa.
  • Confusão mental e náuseas persistentes.

“O rim tem grande capacidade de adaptação, mas não é indestrutível. Ele compensa até não conseguir mais. Cada agressão repetida diminui a reserva funcional. Quando os sintomas aparecem, frequentemente já houve perda significativa e irreversível. O rim não perdoa excessos crônicos, ele acumula cicatrizes”, conclui o nefrologista. Para quem deseja saber mais sobre como proteger seus filtros vitais, a Fundação Pró-Rim disponibiliza conteúdos educativos e campanhas de prevenção que auxiliam a população a identificar precocemente as doenças silenciosas do sistema urinário.

Guia de hidratação: sobrevivendo ao calor do Tocantins

No Tocantins, a hidratação é muito mais que  “beber água quando se tem sede”. A sede já é um sinal tardio de desidratação. Em um ambiente de 35°C a 40°C, o corpo perde líquidos e eletrólitos de forma invisível através da transpiração.

1. Cálculo da necessidade real

A regra básica de 2 litros de água por dia é insuficiente para o clima regional. O cálculo recomendado é de 35ml a 45ml de água por quilo de peso corporal.

  • Exemplo: uma pessoa de 70kg no Tocantins deve ingerir, no mínimo, 3,1 litros de água diários.
2. Regra do “um para um” com o álcool

Se houver consumo de álcool, a estratégia deve ser agressiva para anular o efeito diurético do álcool (inibição do ADH). Para cada copo de cerveja ou dose de destilado, deve-se ingerir um copo equivalente de água mineral. Isso mantém o volume circulante e protege os glomérulos da pressão extrema.

3. Monitoramento pela escala de cores

O método mais simples e eficaz no dia a dia é observar a cor da urina.

  • Transparente ou amarelo palha: hidratação ideal.
  • Amarelo escuro: sinal de alerta; o rim está concentrando solutos para economizar água.
  • Cor de “chá” ou “coca-cola”: emergência médica. Pode indicar mioglobina (rabdomiólise) ou falência renal aguda.
4. Eletrólitos: além da água pura

Em dias de calor intenso ou atividade física, a água pura pode não ser suficiente para repor os sais perdidos. O uso de água de coco ou bebidas isotônicas ajuda a manter o equilíbrio de sódio e potássio, essenciais para a função de filtragem renal.

O Dr. Winglerson Cordeiro reforça que o monitoramento preventivo e a consulta regular ao médico nefrologista são as ferramentas mais eficazes para evitar que o silêncio da doença renal se transforme em uma emergência.

Para facilitar o entendimento sobre os cuidados com a saúde renal, a Fundação Pró-Rim disponibiliza e-books educativos sobre o tema, que podem ser baixados gratuitamente, como por exemplo “O que a Urina pode revelar sobre a nossa saúde?”. Outro e-book disponível para baixar é o “Tudo o que você precisa saber sobre doenças renais”.

Ana Negreiros, comunicação da Fundação Pró-Rim
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