
Doença renal abordada na novela da Globo pode avançar sem sintomas; nefrologista da Fundação Pró-Rim orienta sobre diagnóstico e tratamento, e paciente compartilha sua experiência com a diálise.
Em “Por Você”, Pérola, personagem de Renata Sorrah, enfrenta o diagnóstico de doença renal policística e a necessidade de fazer diálise. A resistência inicial ao cuidado médico e a adaptação ao tratamento aproximam a ficção de dúvidas presentes na vida de pacientes e famílias: toda doença renal exige diálise? Como identificar alterações nos rins antes dos sintomas?
Para o médico nefrologista Franco Silveira da Mota Kruger, CRM-SC 15126 e RQE 11094, a trama é uma oportunidade de informar sem generalizar. “Cada pessoa tem uma história, e a indicação do tratamento depende de uma avaliação individual”, afirma.
Qual é a doença de Pérola em “Por Você”?
Pérola tem doença renal policística, uma condição genética, geralmente hereditária, que provoca a formação de múltiplos cistos nos rins. Essas bolsas preenchidas por líquido podem aumentar ao longo do tempo e comprometer o funcionamento dos órgãos.
A doença renal policística é uma das possíveis causas de doença renal crônica. Diabetes e hipertensão também estão entre os principais fatores de risco para o comprometimento dos rins.
Ao longo da trama, Pérola inicialmente esconde sua condição e resiste ao cuidado médico. Durante o tratamento, aproxima-se de Manoel, personagem vivido por Reginaldo Faria, que também convive com uma doença renal e faz diálise.
O Dr. Franco ressalta que a trajetória da personagem não representa todos os casos. “Receber o diagnóstico de doença renal não significa que a pessoa precisará começar a hemodiálise. Existem diferentes estágios e possibilidades de cuidado. Nosso objetivo é identificar o problema, tratar suas causas quando possível e reduzir o risco de progressão”, explica.
A doença renal pode avançar sem sintomas?
Segundo o nefrologista, a ausência de dor ou de outros sinais perceptíveis não significa que os rins estejam saudáveis.
“A doença renal crônica pode evoluir silenciosamente. Quem tem diabetes, pressão alta ou histórico familiar precisa conversar com a equipe de saúde sobre o acompanhamento dos rins, mesmo quando se sente bem”, orienta.
A investigação pode incluir a dosagem de creatinina no sangue, usada para estimar a capacidade de filtração dos rins, e a pesquisa de albumina na urina, que ajuda a identificar sinais de lesão renal. Os resultados devem ser interpretados em conjunto com o histórico e a avaliação clínica.
Controlar a pressão arterial e o diabetes, não fumar, evitar a automedicação e reduzir o consumo de sal estão entre as medidas recomendadas pelo Ministério da Saúde. Pessoas com fatores de risco podem procurar a Unidade Básica de Saúde para avaliar a necessidade de exames e acompanhamento.
Como funciona a hemodiálise?
A hemodiálise retira resíduos e excesso de líquidos do sangue quando os rins não conseguem realizar adequadamente essas funções. Durante a sessão, o sangue passa por um filtro fora do corpo e retorna ao organismo.
Segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia, as sessões costumam durar cerca de quatro horas, três ou quatro vezes por semana, conforme a prescrição médica.
O acompanhamento vai além do procedimento. “O cuidado também envolve medicamentos, alimentação e orientações individualizadas. Não existe uma quantidade de água ou uma dieta que sirva para todas as pessoas com doença renal. As recomendações dependem dos exames, das condições clínicas e da quantidade de urina que a pessoa produz”, ressalta o Dr. Franco.
O Censo Brasileiro de Diálise 2024, da Sociedade Brasileira de Nefrologia, estimou 172.585 pessoas em diálise no país em julho daquele ano. O número inclui diferentes modalidades de tratamento, não apenas a hemodiálise, e não representa o total de brasileiros com doença renal crônica.
Fora da novela, a história de Maria Vitória
“As minhas crianças.” É assim que Maria Vitória Martins de Souza, de 26 anos, responde quando perguntada sobre o que a faz sorrir. Ela trabalhou como babá e ainda visita as crianças de quem cuidou. Esses encontros ajudam a aliviar as preocupações com o tratamento que faz há dois anos.
Três vezes por semana, Maria Vitória sai de Paraíso do Tocantins e percorre cerca de 60 km até a sessão de hemodiálise, além de outros 60 km para voltar para casa.
“Minha vida mudou do dia para a noite”, conta. Entre os aprendizados desse período, destaca a paciência e a atenção às próprias necessidades. “A olhar mais para mim, a me cuidar melhor, me priorizar um pouquinho, porque a gente acaba se deixando um pouco.”
A tia Solange, a avó e uma amiga fazem parte de sua rede de apoio. Maria Vitória também encontra força na fé e tem no transplante um de seus sonhos.
Para o Dr. Franco, acolher essas expectativas e compreender a rotina de cada paciente fazem parte do cuidado. Isso significa explicar o tratamento com clareza, ouvir as preocupações e construir as decisões com a pessoa, respeitando sua autonomia.
O cuidado na Fundação Pró-Rim
De janeiro a julho de 2026, a Fundação Pró-Rim realizou 73.211 sessões de hemodiálise em cinco unidades: Joinville, São Bento do Sul e Balneário Camboriú, em Santa Catarina; Palmas e Gurupi, no Tocantins.
Em setembro de 2026, a instituição ampliou esse atendimento com o início das sessões na unidade de Palhoça, na Grande Florianópolis. A entidade filantrópica também oferece consultas especializadas no ambulatório de Joinville.
Em parceria com o Hospital Municipal São José, na mesma cidade, a Fundação havia realizado um total de 2.147 transplantes renais até setembro de 2026.
Maria Vitória não minimiza as dificuldades ao falar com quem está começando a diálise. Sua mensagem parte da própria experiência: “Não desanime, seja forte. Tenha muita fé. Não é um tratamento fácil. Mas é isso, é vida.”
Ana Negreiros, comunicação da Fundação Pró-Rim




